Eu, desde menina, sonhava conhecer dois lugares no mundo todo. Eu não tinha muito a noção de mundo, já que a viagem mais longa que tinha feito tinha sido ir do Rio a São Paulo; mas eu tinha certeza que um dia eu conheceria Paris, o que se concretizou em 2014 (confira aqui), e o Egito, sonho que realizei no meu aniversário de 29 anos.

Ir ao Egito me trouxe uma mistura de angústia e deslumbramento. Angústia por ver de perto o estado que o país está depois de todas as invasões, revoluções e crises financeiras e deslumbramento por tudo o que o Egito já foi um dia – um dos povos mais cultos e poderosos do mundo.

A cidade do Cairo é um loucura! Nem pense em dirigir por lá! O trânsito é “cairótico” (engraçadinha hehehe)! Muita gente indo e vindo, muita sujeira, uma desorganização geral. Eu não consegui entender um nada de como funciona a cidade – e veja bem! Eu moro no Oriente Médio. Mesmo com tudo isso eu senti uma energia maravilhosa emanando das pessoas com quem cruzei pela minha passagem por lá. A experiência foi incrível. Eu que amo bater papo, conversei sobre política, economia e até religião!

Acredito que, por ser o Egito a capital da cultura no Oriente Médio, e também pela população ser bem misturada – para quem não sabe 10% dos egípcios são cristãos- eles estão mais abertos ao diálogo e também adoram trocar figurinha com quem está de visita. Acho que aprendi mais árabe em 10 dias lá do que em toda a minha jornada pelo Golfo, voltei melhor do que fui em muitos aspectos.

Pula, levanta o vestido, mostra a busanfa no Egito... =)
Pula, levanta o vestido, mostra a busanfa no Egito… =)

Para fazer essa viagem decidimos ir com uma agência de turismo local, mesmo a gente não gostando desse modelo de viagem. Isso porque lemos em muitos blogs e também ouvimos de amigos, que não era fácil ou bom turistar sozinhos. Constatamos com nossos próprios olhos que era verdade. Ficamos sozinhos por duas vezes durante a viagem, uma tarde livre em Luxor na qual fomos perseguidos e assediados por um moço numa charrete e por um outro querendo vender passeio de barco, e quando chegamos de volta ao Cairo na estação de trem, quando um policial nos viu sozinhos e tentou nos subornar (sem motivo nenhum, diga-se de passagem).

Mesmo com todo o cuidado que tomamos e já com a experiência da barganha na hora de comprar, tomamos bem uns dois golpes… Eu comprei algo que valia 2 por 10 e Thiago comprou um chocolate meio comido (sim! você não entendeu errado, um chocolate meio comido). Por isso estar sempre acompanhados por alguém que fala árabe é muito bom e foi muito importante.

Fechamos um pacote com a Hola Egypt Tours  e tudo deu certo na medida do possível. Eles foram bem atenciosos, resolviam os problemas que surgiam e me deram até bolo de aniversário (S2). O pacote incluiu todos os transfers, guias turísticos, ás vezes só para nós dois outras vezes para pequenos grupos, hotel no cairo, passagem de trem que fizemos um upgrade para a cabine com cama e o cruzeiro no Nilo.

Eu e Thiago tivemos sorte e nosso guia no Cairo foi o melhor! Emad, um egípcio que fala português, uma simpatia de pessoa. Caso fechem o tour com essa agência não esqueçam de pedir por ele, com certeza não vão se arrepender. Além de ter um conhecimento absurdo sobre o Egito, ele é sincero e nos protegeu de todas as furadas do Cairo – passeios a camelo por preço exorbitante, pessoas tentando vender coisas falsas etc etc etc…

Nosso guia de Kom Ombo e Edifu também foi ótimo. Fiquei feliz de ver como ele defendia os templos, brigava com quem estava se encostando nas paredes ou metendo a mão. O Nome dele é Hamad Taha. (Pede por ele também)

Uma cabra admirando outra...
Uma cabra admirando outra…

Hoje, já conhecendo, eu mudaria um pouco o meu roteiro e começaria por Aswan (Assuã) e não pelo Cairo. Isso poupa uma perna da viagem de trem e te economiza tempo e disposição.

Começamos nossa aventura no Cairo e bem no dia do meu aniversário, não poderia ter recebido presente melhor! Nossa primeira parada foi Memphis, a primeira capital do Baixo Egito, lá tem um museu a céu aberto bem interessante com umas estátuas enormes de Ramsés II, o faraó que reinou mais tempo no Egito e um dos mais famosos. Esse bairro é bem pobre, e eu percebi que tinham muitas escolas de tapetes. Perguntei ao guia o motivo e ele me explicou que, por não existir educação pública, as crianças órfãs trabalham nessas escolas para pagar por sua educação, a idade mínima é de seis anos e eles podem trabalhar até os 18. Isso me impactou demais.

De lá fomos a Sakkara local onde fica a pirâmide escalonada de Zoser, a mais antiga do Egito. Lá também tinham umas ruínas de um templo e um pátio que era usado para a festividade onde o faraó deveria de tempos em tempos demonstrar sua força. Eu tentei entrar na pirâmide, mas comecei a me sentir claustrofóbica e voltei no meio do caminho (a louca!).

Comemorando 29 em frente a pirâmide escalonada.
Comemorando 29 em frente a pirâmide escalonada.

A tarde fomos as famosas PIRÂMIDES – de Cheops, Chefren and Mycerinus.- e … uau! É mesmo de tirar o fôlego, cada pedra tem o meu tamanho (ou quase) é de se admirar que ainda estejam lá depois de tanto tempo. No mesmo complexo é onde está a Esfinge de Gizé e o vale do templo. Pra quem não sabe tudo isso eram câmaras mortuárias para os faraós.

Até a Esfinge me cortejando...
Até a Esfinge me cortejando…

A noite nos preparamos para a vigem de trem… o trem atrasou duas horas para chegar a estação e por conta desse atraso ele foi se atrasando a viagem inteira. A viagem que era para ter durado 12 horas, ou seja, jantar, dormir, acordar e tomar café da manhã, demorou 21 horas !!!! Era eu e Thiago dentro de uma cabine de trem, sem água, sem comida e sem banheiro, porque naquela altura usar os que tinham estava fora de cogitação. Um verdadeiro teste para nosso relacionamento. Passamos, graças a Deus e ao amor que nos une hehehe.

Por conta do atraso do trem perdemos o passeio em Aswan e não vimos o Templo de Philae e a hidroelétrica da cidade. Fizemos check in no cruzeiro ás 9 da noite e, ás 3 da manhã já estávamos de pé para ir a um dos lugares mais impressionantes da viagem : Abu Simbel. Com o céu ainda estrelados encaramos 3h30m de estrada para este lugar que fica bem próximo a fronteira do Sudão. Lá é onde está o Grande Templo de Ramsés II e o que ele construiu para sua esposa preferida, Nefertari. O cara era megalomaníaco mesmo e bem narcisista também, no templo pra esposa ele mandou pintar várias fotos dele hahaha. Dois fatos interessantes sobre o local: Ele foi transposto pedra por pedra por conta da hidrelétrica e construção do lago Nasser e no templo de Ramsés todo 22 de outubro e 22 de fevereiro os raios de sol iluminam as estátuas dele e do deus Rá, os arquitetos egípcios eram geniais!

Templo de Nefertiti ao fundo...
Templo de Nefertiti ao fundo, as estátuas menores representam os 12 filhos que eles tiveram juntos.

Voltamos para o cruzeiro e partimos para a cidade de Kom Ombo onde fica o templo de Sobek o deus crocodilo. Esse templo é interessante pois era usado também como um hospital, e podemos ver vários hieróglifos de mulheres parindo, plantas medicinais e, dizem!, a fórmula do viagra ( rs).

No dia seguinte fomos ao Templo de Horus na cidade de Edifu, esse é um dos maiores templos, ou o que tem a maior entrada pelo menos. E ele é idêntico ao de Philae que eu perdi no primeiro dia, por isso não fiquei tão chateada, aliás, só estava agradecida por ter saído de dentro do trem.

A primeira foto do dia, graças ao Hamad o guia mais barraqueiro das quebradas!
A primeira foto do dia, graças ao Hamad o guia mais barraqueiro das quebradas! by @thneves

Seguimos nosso passeio pelo Nilo, que é um desbunde de tão lindo. Abrindo aqui um pequeno parêntese sobre o cruzeiro. O barco não é de todo mal, mas também não é 5 estrelas como eles anunciam. Acredito que tenha como pesquisar e escolher barcos melhores, o nosso era estilão anos 40 porém o barco era de 2010, pesquisamos na internet depois.

A última parada do barco foi a cidade de Luxor que, por ser maior, dividimos os passeios em dois dias. No lado oeste vimos o Colosso de Memnon conhecido como templo do vento, o templo da mulher mais diva do Egito ( e não é Cleopatra) a rainha Hatshepsut, a única mulher que governou como se faraó fosse; Vale dos Reis com a tumba de Tutankamón e o Vale das rainhas. Foi tão maravilhoso ver como as cores continuam lá depois de mais de 3 mil anos. As tumbas cravadas nas rochas, perfeitamente construídas continuam contando a história de pessoas que viveram há tanto tempo! É impossível não se sentir extasiado diante disso.

O único templo com três andares.
O único templo com três andares. Hatshepsut a verdadeira rainha do Nilo.

No lado leste, vimos o Templo de Luxor e o templo de Karnak, um era ligado ao outro por um corredor de esfinges que cortava a cidade. O templo de Luxor tem um lado interessante que conta um pouco da civilização que ali viveu, ele foi soterrado, ai sem saber construíram uma igreja em cima dele, que por sua vez também foi soterrada e construíram uma mesquita, que ainda está lá em funcionamento como uma das mais antigas da cidade. O templo de Karkak é um dos maiores do Egito, é na verdade um complexo de templos que foi utilizado por diversos faraós e todos contribuíram construindo algo. Ele funcionou por mais de 2 mil anos!

Tivemos um dia livre em Luxor, já fora do cruzeiro, e aproveitamos para explorar a cidade e procurar livrarias fomos ao mercado popular e mais uma vez ao templo de Luxor dessa vez durante o dia. A noite pegamos o trem de volta para o Cairo, nem preciso dizer que tive pesadelos a noite toda e chorava todas as vezes que o trem parava, tudo por conta do trauma das 21 horas, dessa vez, foram 12h… graças a Deus!

Templo de Luxor
Templo de Luxor

Passamos nosso último dia de viagem no Cairo, visitamos o Museu Nacional que é onde está a tumba e o tesouro de Tutankamón e outras mais de 250 mil peças e artefatos encontrados no Egito, isso sem falar das múmias dos faraós, eu nem entrei na sala porque sou impressionada, ia ficar sonhando com aquilo. Mais tarde passeamos pela Cidade antiga que é onde tem as mais importantes igrejas Coptas e até uma sinagoga. Lá visitamos a caverna onde a Sagrada Família ficou escondida, quando fugiam de Herodes. E, pelo nosso guia ser cristão, ele pode nos explicar melhor os rituais de celebração e até nos levou para beber água do Nilo e comer o pãozinho que distribuem lá.

Em frente a Igreja Copta na Cidade antiga.
Em frente a Igreja Copta na Cidade antiga.

Nós vimos de longe a mesquita de alabastro Mohamad Ali, por morar na região ficamos meio cansados de mesquitas, mas parece ser bonita. Inclusive é lá que está o relógio que o rei da França deu de presente e nunca funcionou em troca do obelisco que está hoje na Praça da Concórdia em Paris. Caminhamos pela Praça de Tahrir, onde começou a primavera árabe. Terminamos o dia e a viagem no Mercado popular de Khan El Khalili que eu, particularmente, estava esperando mais. Tem muitos produtos “made in china” e todo mundo tenta superfaturar em cima de nós, turistas.

A viagem foi tudo de lindo e tudo de louco. Foi tudo o que eu esperei ( e o que eu não esperei também). Faria de novo. Depois de ver tudo o que vemos no Egito, tenho medo de encarar a vida de forma mais blasé, porque tudo o que eu vi foi absurdamente lindo. Ir ao Egito e aproveitar a viagem é tirar a beleza do caos, é respirar história, é ser transportado no tempo, é se sentir aventureiro, é desbravar!

Agradecimento especial aos queridos Sara, Fábio, Patrícia e Valdo vocês foi um prazer dividir o Egito com vocês S2

Vídeo da viagem!

Thaís já foi atriz de teatro amador, bailarina torta, advogada e professora universitária. Mora no Qatar e desde que chegou a Doha, depois de 18 horas de viagem, se descobriu desbravadora. Como uma boa capricorniana não se acostumou bem à mudança, entretanto isso não foi obstáculo para que abrisse seu coração para viver uma nova aventura diferente de tudo que já viveu antes. Aos poucos Doha ganhou seu coração a ponto de sentir o desejo pulsante de dividir com o mundo o que este lugar tem a oferecer.

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