No Qatar ainda não existe o curso de Odontologia por isso todos os profissionais ou são estrangeiros ou estudaram fora. Cuidar da saúde dental no país não é um dos programas mais baratos. Os valores dos tratamentos não chegam nem perto do que se cobra no Brasil; uma obturação, por exemplo, chega a custar QR 800,00 ($220,00). Geralmente os planos de saúde cobrem apenas parte do tratamento e por conta disso dá para imaginar que tem muita gente com os dentes nada amigáveis por aqui.

Escovar os dentes mais de duas vezes por dia pode virar chacota no ambiente de trabalho, acredite! Eu escondo minhas escovas de dentes para ninguém me taxar de “senhora que escova os dentes 3x ao dia” rs

Conheci uma brasileira que topou o desafio de trabalhar nesse sistema de saúde dental curativa e não preventiva. Abaixo segue a entrevista cheia de dicas e como é ser dentista aqui no Qatar.

Um dia como: Dentista

A Mariana Jatahy tem 30 anos, é casada e mãe da Sofia. Dentista formada pela Universidade Estácio de Sá em 2008. Especializada em ortodontia e endodontia. Mora em Doha desde maio de 2015 e atualmente trabalhando na Al Wehda Dental Center.

BPM – Como tem sido a sua trajetória profissional? 

Mariana -Sempre batalhei muito para conseguir alcançar meus objetivos. Já morava sozinha no final da minha faculdade, então já tinha muitas responsabilidades além de só estudar. Em 2012 consegui montar o meu consultório em Jacarepaguá e, quando decidi cursar endodontia, minha filha já tinha nascido e essa foi a parte mais difícil para mim porque além de trabalhar e cuidar dela ainda estava estudando novamente. Mas eu consegui terminar e hoje me considero realizada profissionalmente.

BPM -Como surgiu a ideia de trabalhar no Qatar?

Mariana – No ano de 2015 vim de férias para o Qatar visitar a minha família que já mora aqui há 10 anos. Conversei com amigos que viviam aqui e achei que seria uma boa oportunidade tanto financeira quanto em qualidade de vida; então comecei a pesquisar clínicas para obter informações de salário e benefícios. E concluí que valia a pena. A partir de então comecei o processo de validação de diploma.

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BPM – Você fez faculdade ou algum outro curso específico no Qatar? O que é preciso fazer para ser dentista no país?

Mariana – Não fiz nenhum curso no Qatar. Para validar o diploma caso não tenha especialização é preciso fazer uma prova. Como tenho especializações não precisei fazê-la. No caso dos especialistas, com mestrado, por exemplo, precisa comprovar três anos de experiência e mais três anos de duração de curso. Se é especialista porém não se enquadra nos requisitos acima, deve entrar com o pedido para a licença de clínico geral porém não é preciso fazer a prova. Após conseguir a licença como clínico geral pede-se o privilégio para poder trabalhar na sua área de especialização.

Existe aqui o que eles chamam aqui de “privilege specialist” (especialista com privilégio) que é o título dado aqueles que não conseguiram validar o diploma ou por não ter tempo de experiência  ou por não ter o tempo de curso.

BPM – Como é a sua rotina? A que horas começa a trabalhar e qual é a sua carga horária?

Mariana  – A rotina é bem puxada; o horário de trabalho é de 9:00h as 21:00h com intervalo de almoço de 13:00h ás 16:00h. Folga só as sextas feiras.

BPM – Quais as diferenças da sua profissão, se houverem, entre o Brasil e o Qatar?

Mariana  – Ao meu ver não há diferença entre Brasil e Qatar. A forma de se trabalhar é a mesma.

BPM – Que cursos você recomendaria para as brasileiras que queiram ingressar na mesma profissão e seguirem carreira, no Qatar? 

Mariana  – Não há um curso específico para essa prova. Existem apostilas especificas para o golfo com as questões da prova, e dá para estudar por essas questões . É importante ter um nível de inglês bom.

BPM – Qual a média de salários, para uma pessoa iniciante e já no topo da carreira?

Mariana  – Os salários variam bastante mas fica numa media de QR 13.000,00- QR 15.000,00 para clínico geral, QR 17.000,00 para clínico com privilégio e QR 25.000,00 para especialista mais comissão. ($ 3.500- $4.100; $4.700; $ 6.850)

BPM – Como é trabalhar em uma área científica, em outra língua, sendo mulher? Você sente alguma espécie de discriminação?

Mariana  – Os termos técnicos são bem parecidos com o português. Eu vejo discriminação sim aqui. O que mais me chamou atenção foi saber que o dentista homem tem direito, por exemplo, a passagens para o país de origem anuais para ele e a família e quando se trata da dentista mulher a passagem e só para ela. Esse e só um dos muitos exemplos da diferença de tratamento entre o profissionais homens e mulheres.

BPM – Qual seria o aspecto mais positivo e o negativo (se houver) de ser profissional na sua área, no Qatar?

Mariana  – O lado positivo de trabalhar no Qatar é ter acesso a alta tecnologia e as melhores marcas e materiais de primeira linha. O negativo é a questão de gênero que pesa muito no ambiente de trabalho.

BPM – Você acha que teria as mesmas chances na carreira se estivesse no Brasil, ou o fato de estar no Qatar lhe proporciona mais opções profissionais?

Mariana  – Por trabalhar com materiais e tecnologia de primeira linha aqui no Qatar posso evoluir profissionalmente e fazer tratamentos que talvez não faria no Brasil por falta de oportunidade.

BPM – Como você concilia a vida de mãe e profissional em uma cultura diferente do Brasil?

Mariana  – Está sendo muito difícil para mim trabalhar quando o assunto é conciliar ser mãe e profissional. Pelo fato da jornada de trabalho ser muito longa eu quase não tenho tempo para ficar com a minha filha; quando chego em casa ela já esta dormindo. Esse é o lado ruim de trabalhar aqui.

Mariana com sua paciente preferida, Sofia.
Mariana com sua paciente preferida, Sofia.

Publicado originalmente em : www.brasileiraspelomundo.com

Thaís já foi atriz de teatro amador, bailarina torta, advogada e professora universitária. Mora no Qatar e desde que chegou a Doha, depois de 18 horas de viagem, se descobriu desbravadora. Como uma boa capricorniana não se acostumou bem à mudança, entretanto isso não foi obstáculo para que abrisse seu coração para viver uma nova aventura diferente de tudo que já viveu antes. Aos poucos Doha ganhou seu coração a ponto de sentir o desejo pulsante de dividir com o mundo o que este lugar tem a oferecer.

2 comments on “BPM – Como é ser dentista no Qatar”

  1. Oi Thais!!
    Adoro o seu blog e seus posts…e talvez eu me mude para Doha em breve..
    Gostaria de saber se você conhece alguma médica brasileira por aí!!!!Gostaria de informações sobre revalidação de diploma e condições de trabalho.
    Muito obrigada!

    • Oi Tamiris! Eu não conheço pessoalmente mas sei que tem uma médica brasileira aqui, ela é gastro se não me engano. Deve ser um processo parecido com a validação do diploma de dentista. Você pode dar uma olhadinha no site do governo. Grande abraço.

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